
Heitor Gomes
Q boa, sabão e multi uso de limão.
Desinfetante cheiroso pra ganhar algum dinheiro.
É cobra engolindo cobra,
o prêmio é o sagrado paradeiro.
Chega cedo logo acordo,
é mais um dia rotineiro.
Q boa, sabão e multi uso de limão.
Sou um sagrado quiboeiro.
Bom dia madame, que casa mais linda.
Tenho aqui um produto cheiroso,
sua casa vai ficar um brinco,
sem trabalho e nenhum esforço.
Mas como sou mentiroso.
Eu minto pra viver,
eu minto pra comer.
Eu sou a própria mentira,
herdada sem eu querer.
Sabão com limão e saco pra lixo.
Vinte, quarenta e sessenta litros.
Para ensacar o saco do povo,
cheio de tantos sonhos reprimidos.
Q boa, sabão e multi uso de limão,
para limpar a sujeira escondida.
Mas a sujeira está tão calacrada,
até parece casca de ferida.
Calacrada de viver enclausurada.
Exalando a própria mentira,
de uma vida inútil e bolorenta,
que nem a Q boa retira.
Q boa, detergente e sabão.
Multi uso, desinfetante de limão.
Limpa toda a sujeira do mundo,
mas não lava o pecado do seu coração.
Q boa, sabão e multi uso de limão.
Q boa, sabão, coração sem compaixão.
Na selva de pedra, a cobra engole o sapo,
o sapo engole o grilo e todos vão pro saco.
Saco pra lixo, sacola de mercado.
Ensaca o saco, que já está todo ensacado.
O saco rasgou de tanto encher o saco,
de tanta sujeira, que nem cabe no buraco.
O buraco todo cheio de sonho e ilusão,
de uma vida medíocre, inútil e sem razão.
Dinheiro, Q boa e multi uso de limão.
Batizado, bento, santo ou pagão.
O povo está limpo, tudo muito perfumado,
mas a alma está fedida e o coração todo chagado.
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